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Finalmente, um Natal brasileiro

Sempre achei o ciclo natalino e a decoração que o acompanha, de norte a sul do Brasil, a coisa mais esdrúxula do mundo. O horror, o horror, como diria Joseph Conrad. Antes que você diga que não tenho coração, reflita comigo. Num calor dos diabos como o que faz nos Trópicos em dezembro, especialmente no Nordeste, faz sentido cultivarmos elementos como neve, trenós puxados por renas (coitadinhas!), pisca-piscas que atazanam as entradas das casas e, delírio dos delírios, pôr meias em lareiras (!) à espera de presentes?

Essas coisas podem ser lindas nas montanhas geladas do Canadá, em meio ao fog londrino, nos arredores do castelo da Cinderela na Baviera alemã... Mas aqui, onde muitas vezes vestir uma regata e arrastar uma sandália de dedos é um suplício, sinceramente, não cabe nem em Gramado onde, aliás, nessa época do ano não corre um vento nem pelo amor de Deus. E atire fora primeiro picolé de Caicó quem, lá no fundo, depois do cansaço todo que é atravessar o corre-corre de dezembro, não vê a hora de se livrar das tais luzinhas de Natal – que também aumentam a temperatura dentro de casa, já sentiu? – e cair no fundo de uma rede na casa de praia.
Não deixa de ser um divisor de águas, portanto, a “subversão” deliciosa que o artista curraisnovense Zeca Zenner promoveu com a “Parada Natalina” que agita as noites da Praça Cívica até o dia 6 de janeiro. É o começo do que pode se tornar, no futuro, o autêntico Natal do Brasil, como há muitos anos a Natura enfatiza nas suas campanhas publicitárias ao mostrar como são belas as coisas da nossa terra.
Muita gente vai torcer o nariz para o sumiço das renas, outros vão morrer de saudades do meloso “gingle bells”, mas como não se emocionar com  anjos calçados de cangaceiros, caranguejos e lagostas em forma de oferendas, um pé de caju no lugar do pinheirinho e um papai Noel de bermudas, encantando a criançada a bordo de uma jangada, a flutar sobre ondas agitadas por golfinhos? Só não gosta quem tem vergonha de ser o que é: nordestino e brasileiro. E com muito, muito calor em dezembro. 


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