gototopgototop
As mentiras estéticas

Tive um professor muito importante na minha formação que me ensinou uma lição inesquecível. Parafraseando aquele famoso trecho de um poema de Carlos Drummond de Andrade, ele me disse, no último dia de aula:  “Vai ser gauche (na contramão, numa tradução livre) na vida, e tenha muito cuidado com as mentiras estéticas”.  Fiquei muito tempo matutando sobre o que seria a tal mentira e só a vivência me trouxe a resposta, como tudo nessa vida. Mentiras estéticas são aquelas verdades pretensamente consagradas, principalmente pelos meios de comunicação, que nem mesmo a mãe dos tais praticantes acreditam, de tão absurdas.

Primeiro traço do mentiroso esteta: ele sempre telefona para você e diz: “tenho um projeto incrível para lhe apresentar”. Você, escaldado como já é, gagueja um pouco e imediatamente é compelido a marcar um almoço. Sim, porque o mentiroso esteta adora marcar um almoço: é como se o restaurante fosse sua zona de conforto. No dia marcado, ele chega à mesa, geralmente bem apresentável, e saca de um laptop uma apresentação em power point – sim, porque essa é outra ferramenta que não pode faltar no mise en scène. Pintores medíocres apresentam quadros horríveis; fotógrafos de meia-tijelas saem-se com imagens desfocadas, ambos ávidos por invadir uma galeria e revolucionar as artes plásticas. Escritores que não sabem empregar uma próclise, ênclise ou mesóclise jogam no seu peito esboços de livros de poesia, cada uma pior que a outra. Jornalistas de poucas palavras apresentam blogs sobre coisa nenhuma, projetos gráficos de revistas que obviamente não passam do primeiro exemplar ou programas de televisão que vão ocupar um espaço que vão revolucionar o mundo – na opinião dele, você pensa, em silêncio.

Cantores de poucos trinados sempre querem abrir um bar, é batata, e esquecem de por um ventilador. E cozinheiros de fim-de-semana sempre estão prontos para figurar nos grandes guias gastronômicos, de preferência o francês Gault Millau (pronuncia-se “gô miô”, ok?). Tudo isso são projetos, ou melhor, mentiras estéticas, que não resistem a uma pergunta, uma simples pergunta de quem está acostumado ao mundo real da produção cultural e comercial: “e quem paga a conta”? Ah, o mentiroso esteta não lembrou desse detalhe porque a obra dele, afinal, é tão maravilhosa que por si só se encarna, como se fosse gerada pelo Espírito Santo. Deus nos proteja dessa gente. Obrigado, professor!



Novos Amigos

Faça seu Login