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Bem vindo à África

Durante os seis meses em que morei em Luanda, capital da República de Angola – cidade que fica do outro lado do mar no mesmo paralelo de Recife – as perguntas mais frequentes que os amigos brasileiros me faziam eram as seguintes: a) O que você come aí? b) Tem festas em Luanda? c) Os angolanos conhecem alguma coisa sobre o Brasil? d) Que cantores nossos fazem sucesso aí?

  Eu já tinha uma resposta padrão para os e-mails: feijão, arroz, carne, galinha cabidela, peixe, farofa, novela das oito, batizados e casamentos, Roberta Miranda, Alexandre Pires, Banda Calypso, samba, pagode, axé, gente festeira... e eu chegava a escutar o barulho dos queixos caíndo, do outro lado da tela. Como assim?
Sim, rolava uma decepção da galera do lado de cá porque, lá no fundo, todos ficavam esperando relatos de miséria, minas terrestres prontas para explodir, feitiçarias pesadas e leões, elefantes e girafas passeando em frente a minha casa todos os dias. Nada mais caricato e portanto falso. Tanto quanto aquela imagem que muito gringo tem do Brasil: local onde ainda vive-se em casas sobre árvores e cobras e macacos passeiam pelas ruas, lépidos e fagueiros.
 
Esse trololó todo é para dizer que talvez nunca a escolha de uma sede de Copa do Mundo vai fazer tão bem a um continente – a África do Sul é um dos 53 países que compõem esse berço da humanidade chamado África – quanto essa de 2010. Do outro lado do mar, vive um povo com um cotidiano exatamente igual ao nosso e que sabe absolutamente tu-do sobre o Brasil, consome como nenhum outro nossa música, moda, novelas e, claro, futebol. Há um nível de miséria e corrupção que não pode ser comparado com o nosso, claro, mas também muita gente rica, bonita, inteligente, viajada - esses parâmetros que muitos viajantes utilizam para classificar um lugar como "cool".
 
Mesmo de forma velada, ficamos sabendo que os leitos de hotéis não foram totalmente ocupados nem os ingressos para os jogos esgotaram-se logo, como ocorreu em nações desenvolvidas como Alemanda e França. Tudo, claro, resultado de preconceito gerado exatamente pela falta de conhecimento. E também preconceito racial, uma das maiores faltas de virtude que podem acometer o dito ser humano. Vale um conselho? Nas próximas férias, se você puder, pegue um avião, atravesse o Atlântico e vá se deliciar com as belezas e hospitalidades do povo africano. Comece pelos países que falam português, como Angola, Moçambique, Cabo Verde e as Ilhas de São Tomé e Príncipe. Você vai entender como foi de lá que verdadeiramente viemos, muito mais do que da Europa ou dos Estados Unidos.

 


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